Espelho Negro


Dentro de mim existe um ruído mudo que se propaga pelo silêncio da minha própria derrota. Olho os dedos que se fecham sob um vazio que me esmaga, na triste e confusa persistência de uma multidão que dentro de mim grita, num desespero que me corrói os ossos, a alma, o tempo…
Olho os dias sempre iguais, os minutos que passam lentos numa convulsão de imensidão. Olho sem ver, olho…

Quem és tu? Porque persistes em me atormentar? Num grito que trespassa todas as derrotas, numa fúria que hesita em gritar do mais fundo de mim, na solidão de todos os tempos encerrados no túmulo vazio da minha memória. Olho para o espelho, glórias passadas cravadas na minha pele, em beijos secos que jazem no fundo de meus olhos vazios. Existe alguém atrás desse véu? Um grito de êxtase preso no fundo de uma garganta ferida? A voz rouca do tempo que se apaga? O tímido vislumbre de um toque que se anseia? A saudade difusa de possuir o que nunca se teve? O sonho é a persistência de um vazio que se quer gritar. E acordo com a certeza de nada mais ter dentro de mim. Olho o espelho… nada vejo.