Ærumma
A meu lado um anjo, feito de sombras e solidão. Dentro de mim um demónio, rasgando-me em gritos. Fecho os olhos e acaricio o vazio de mim. Nas sombras de fumo e escuridão, vultos dançam, ébrios com a música silenciosa da noite. Olho o silêncio, dança inerte dos sentidos. Abro os olhos. Fico a olhar o tecto. Vazio.Há de repente um ribombar. Dentro de mim algo explode. Algo tenebroso e assustador, uma erupção de negro que me engole. Nada faz sentido, tudo se torna irreal, sufocante. Um grito que me consome, no silêncio da noite fria. Um múrmurio ténue que cresce, se torna vagas monstruosas de terror. Consome-me um turbilhão tempestuoso. Um buraco negro que cresce, imenso, cada vez maior. Cresce com um silvo que se torna cada vez mais ensurdecedor. Cada vez mais avassalador. Multidão de demónios que se soltam no inferno de mim, em gritos desesperados, constantes, fétidos, avassaladores. Engolido pelo meu próprio medo, o meu corpo cai derrotado no vácuo de mim. Um grito solta-se, desesperado.
Nada sobra...
Noite Fria
Na noite fria, o nevoeiro toma conta de tudo, arrasta desejos esquecidos nas sombras. Os meus pés ecoam solitários nas paredes sujas, e a febre que toma conta de mim faz-me tremer em silêncio. A noite faz-se silêncio e nada.
No fim da rua, um vulto encolhido. Caminha em silêncio na minha direcção. Arrasta os pés devagar, invisível na roupa grossa. Quando se cruza comigo, os seus olhos encontram os meus, murmura "boa noite" num fio de voz sumida, e tosse com o ar frio que lhe entra na garganta. Respondo, passo por ele. Depois de três passo ouço-o, "desculpa...". Viro-me. "Não tens um cigarro?". Dou-lhe um cigarro, e toma-o com as mãos nuas. Agradece, desculpa-se, não tem dinheiro, está desempregado, não encontra trabalho, está doente, um jeito num ombro, já foi à Segurança Social... Interrompo-o, não há problema, ele agradece, diz boa noite.
Talvez num outro tempo o ouvisse. Talvez num outro tempo lhe desse outro cigarro. Talvez num outro tempo, deixasse o homem desabafar, antes de o ver partir, com um sorriso nos lábios e um brilho no olhar. Não há mal que sobreviva ao momento de o desabafar. Todos nós sabemos isso. A tristeza, a vergonha, o medo, são palavras que nos sufocam na mente, com o peso imenso de nos esmagar, mas basta dar um pouco de ar nas palavras que nos rasgam, que por momentos elas fazem-se leves, e fluem para o vazio antes de se fazerem silêncio. Esvaziam-se. E naquele breve instante, fazem-se nada, e tudo parece mais suportável.
Mas agora não. Agora não quero ouvir ninguém. Não quero falar com ninguém. Não me interessa nada de nada. Quero-me com o peso insuportável do meu silêncio, e por mim, todo o mundo pode desabar em silêncio, num grande êxtase de gritos mudos que hão-de rasgar a humanidade toda, até a última vítima sucumbir sob o peso do silêncio atroz. Talvez esse seja o último estado da loucura, antes da grande noite silenciosa tomar conta de todos os eléctrodos do nosso corpo. Talvez... Mas se isto for a derradeira convulsão, hei-de abraçá-la com a voracidade nula de a desejar. E antes do último grito, aquele grito que rasga toda a sanidade, me escapar violentamente da garganta, levanto as mãos ao céu, e gritarei que não me interessa, nada me interessa, declino toda a humanidade, toda a condição humana que me veste, e serei livre, na gargalhada histérica da minha própria derrota.
A noite está fria... sinto o ar frio na pele e na cara, e a realidade toma por momentos conta de mim. O silêncio torna-se ténue. Hei-de aguentar mais um dia...
Talvez num outro tempo o ouvisse. Talvez num outro tempo lhe desse outro cigarro. Talvez num outro tempo, deixasse o homem desabafar, antes de o ver partir, com um sorriso nos lábios e um brilho no olhar. Não há mal que sobreviva ao momento de o desabafar. Todos nós sabemos isso. A tristeza, a vergonha, o medo, são palavras que nos sufocam na mente, com o peso imenso de nos esmagar, mas basta dar um pouco de ar nas palavras que nos rasgam, que por momentos elas fazem-se leves, e fluem para o vazio antes de se fazerem silêncio. Esvaziam-se. E naquele breve instante, fazem-se nada, e tudo parece mais suportável.
Mas agora não. Agora não quero ouvir ninguém. Não quero falar com ninguém. Não me interessa nada de nada. Quero-me com o peso insuportável do meu silêncio, e por mim, todo o mundo pode desabar em silêncio, num grande êxtase de gritos mudos que hão-de rasgar a humanidade toda, até a última vítima sucumbir sob o peso do silêncio atroz. Talvez esse seja o último estado da loucura, antes da grande noite silenciosa tomar conta de todos os eléctrodos do nosso corpo. Talvez... Mas se isto for a derradeira convulsão, hei-de abraçá-la com a voracidade nula de a desejar. E antes do último grito, aquele grito que rasga toda a sanidade, me escapar violentamente da garganta, levanto as mãos ao céu, e gritarei que não me interessa, nada me interessa, declino toda a humanidade, toda a condição humana que me veste, e serei livre, na gargalhada histérica da minha própria derrota.
A noite está fria... sinto o ar frio na pele e na cara, e a realidade toma por momentos conta de mim. O silêncio torna-se ténue. Hei-de aguentar mais um dia...
...horas...
Ocaso
O dia sabe a nada. São horas que passam, e se arrastam, em minutos que persistem na sua precisão.
Acendo um cigarro, mais um, e olho o fumo azulado elevar-se rumo ao Esquecimento.
Crepúsculo
Consegues ouvir o silêncio da minha morte? Vagas inertes que se confundem nas cortinas do dia que jaz. Uma fome que me consome, sem destino que se veja, sem fogo que se faça cinza. Uma inútil sucessão de horas negras, ouvindo o troar da morte que se aproxima...
Madrugada
Apago a luz e as sombras mutilam-se. Na rua, passam carros que incendeiam por momentos a estrada vestida de nada. A noite passa, o sono não vem, a noite sabe a nada.
Grito(s)
Nas sombras incertas um grito ecoou, real e súbito, como uma multidão em alvoroço... Olhei assustado. Era o meu silêncio...
Acendi um cigarro e voei em mim mesmo. Matei-me, ressuscitei, no tempo impreciso dum suspiro.
Sentei-me na cadeira mais afastada da mesa mais vazia, olhei o espaço invisível até ao infinito desfocado. Na minha frente, um copo vazio, uma chávena suja, um cinzeiro abandonado. Cinzas de um momento perdido. Atrás de mim um vazio feito de nada. A brisa passa, queima-me os braços de um sopro, o toque quente, o tempo desfaz-se.
Acendi um cigarro e voei em mim mesmo. Matei-me, ressuscitei, no tempo impreciso dum suspiro.
Sentei-me na cadeira mais afastada da mesa mais vazia, olhei o espaço invisível até ao infinito desfocado. Na minha frente, um copo vazio, uma chávena suja, um cinzeiro abandonado. Cinzas de um momento perdido. Atrás de mim um vazio feito de nada. A brisa passa, queima-me os braços de um sopro, o toque quente, o tempo desfaz-se.
Arabráb
Sim,
Ouvi a tua frase,
Cortada através do silêncio,
Dizer-me algo na alma.
A música sibilante,
Lenta e sensual,
O ar quente da tua garganta,
No ouvido deleitado do meu ser.
Sim,
Ouvi todas as tuas palavras,
Tenho-as ainda dentro de mim,
Canto-as nas noites solitárias,
E vogo em nuvens imaginárias,
Ao som da tua voz.
Ouvi
Como elas te rasgaram o peito,
Enquanto a tua respiração hesitava,
Um segundo,
Talvez nem isso,
E aquele silêncio nosso,
Foi todo o Universo.
Ouvi a tua frase,
Cortada através do silêncio,
Dizer-me algo na alma.A música sibilante,
Lenta e sensual,
O ar quente da tua garganta,
No ouvido deleitado do meu ser.
Sim,
Ouvi todas as tuas palavras,
Tenho-as ainda dentro de mim,
Canto-as nas noites solitárias,
E vogo em nuvens imaginárias,
Ao som da tua voz.
Ouvi
Como elas te rasgaram o peito,
Enquanto a tua respiração hesitava,
Um segundo,
Talvez nem isso,
E aquele silêncio nosso,
Foi todo o Universo.
Gabriel Garcia Marques
“E por quanto tempo continuemos com este cima-abaixo do
caralho?”
Esta frase é o final do livro Amor em Tempos de Cólera, e
ainda me lembro muito bem do livro, uma história de amor impossível, entre um romântico
inveterado, amaldiçoado pela sua fealdade, e o seu grande amor, que se
apaixonou pelas suas cartas, mas quando finalmente o conheceu, assustou-se, fugiu e
demorou toda uma vida até finalmente ceder ao seu amor.
Não, não é uma história de amor no pior sentido da palavra
romance. É um grande romance, li-o apenas uma vez, há mais de vinte anos, mas
ainda me lembro dele. E um grande romance apenas está ao alcance de um grande
escritor. Mas…
Tenho uma confissão a fazer: Não me lembro do Cem Anos de
Solidão. Tenho a perfeita ideia de o ter lido na mesma altura que li o Amor em
Tempos de Cólera. E adorei este segundo, muita mais que o primeiro, mas nos
últimos dias, parece que o Gabriel Garcia Marques só escreveu um livro, e por
mais que me esforce, não tenho nenhuma ideia de nada do livro que dizem ser um
clássico. Será possível que pelos vistos um clássico me tenha passado tão ao
lado? Bem sei que os gostos são pessoais, mas se um livro é assim tão bom, como
é possível que eu o tenha lido (e tenho a certeza que o li), mas nos últimos
dias, por mais que me tente lembrar do livro, não há nada, mas mesmo nada, que
me aflore a memória? É que nem é o caso de não ter gostado, lembro-me que o
achei bom, e por isso fui a correr ler o Amor em Tempos de Cólera. E não, não é
por ter sido há mais de 20 anos, teria talvez uns 12 ou 13 anos, porque me
lembro do Amor em Tempos de Cólera, e nem é por ter lido este depois, porque li
os livros num período em que frequentava a biblioteca local assiduamente, por
isso li-os no espaço de 2 semanas no máximo (tenho a ideia que foi na mesma
semana, mas até dou de tolerância outra semana). A questão é mesmo, pelos
vistos, um clássico passou-me completamente ao lado. Talvez a Arte seja isto
mesmo, a nossa relação com qualquer obra tem sempre algo de misterioso, pessoal,
e muitas vezes nós não estamos preparados para ela. Não me lembro do livro, mas
vou lê-lo novamente, porque tenho a certeza que na altura não estava preparado para
ele. Ou se calhar identificava-me muito mais com a história do Amor… O mundo
divide-se em 2 grupos de pessoas, os que cagam bem e os que cagam mal, e se
calhar na altura cagava de modo diferente… A ver vamos…
Portugal e a Revolução
Certa vez, li algures uma curiosidade, que achei bastante
interessante. Dizia que nos mais de oito séculos de História de Portugal, com
todas as revoluções e mudanças de regime que já existiram, a revolução que tem
o recorde de revoltosos foi o 25 Abril. Foram 120 revoltosos que fizeram a
revolução. Como exemplo, a implantação da República movimentou 40 efectivos.
Inicialmente achei o
número bastante baixo. Como é possível que um Governo de uma Nação,
independente e funcional, seja derrubado por pouco mais de meia dúzia de
arruaceiros? E já existiram casos que foram mesmo meia dúzia de arruaceiros!
Mas depois de pensar no assunto, compreendi. Afinal sou português, conheço
outros portugueses, e sei muito bem como funciona a nossa pátria. A verdade é
que o português sofre de um mal, só não sei se será positivo ou negativo. O português
é incapaz de agir como uma nação, é incapaz de tomar para si a responsabilidade
do seu próprio destino, é individualista e desorganizado, e a única forma que
tem de agir enquanto multidão, é sempre de uma forma emocional, atabalhoada,
confusa e ineficaz. Grita e barafusta quando está protegido pelo anonimato, e
pela segurança das suas acções serem inúteis e passageiras. Qualquer coisa
organizada, com um objectivo, pensada e ponderada, mete-lhe medo, não se
envolve, desconfia e deixa para os outros tratarem. Como Pilatos, lava daí as
suas mãos, e se ninguém fizer nada, a nossa cultura judaica dá-nos uma
capacidade de sofrimento tal, que aguentamos, mesmo que passemos a vida a
queixar-nos e a exigir que alguém faça alguma coisa.
Quando uma meia dúzia de arruaceiros resolve mesmo fazer
alguma coisa, aí o português vai atrás, enche as ruas, tem uns dias de festa e
barulho, apanha umas bebedeiras, fica feliz, pelo menos por uma ou duas
semanas, e prossegue a sua vida, inocente e descansado por não ter nada a ver
com o assunto, assim tem uma excelente desculpa para continuar a queixar-se.
Ele não teve nada a ver com a revolução. E se foi para a rua festejar foi
porque eles (são sempre eles) o enganaram, e afinal o que todos querem é tacho
e viver á sua custa, pobre português.
Alguém tem dúvidas que vivemos novamente um período propício
a uma revolução? E como sempre, não é preciso nada grandioso, nem nenhum
derramamento de sangue. Basta meia dúzia de gajos entrarem na Assembleia, em Belém
ou em São Bento aos gritos e sem serem convidados, darem e levarem meia dúzia
de murros, tomarem conta de 3 microfones em frente a 3 câmaras de televisão e
dizerem as palavras mágicas: “Hoje é um dia histórico para a nossa Nação. Viemos
libertar o nosso grande país do jugo de ladrões e vigaristas que nos têm explorado,
e a partir de agora iremos avançar para o progresso e desenvolvimento de Portugal.
Viva Portugal!”
Ninguém se revolta, ninguém diz que não, as ruas enchem-se
de festejos, toda a gente briga para gritar mais alto que os outros á frente
das câmaras de televisão, agitam-se bandeiras, gritasse “Portugal! Portugal!”,
ganha-se um novo feriado, meia-dúzia de políticos vão uns meses ou uns anos
para o Brasil, gozar a fortuna ao sol, a moral nacional cresce, não há grande
problema de sucessão porque no fundo nós somos um povo justo e pacífico, o que
tem de se pagar pagasse, acabamos por perdoar a quem é deposto, e a vida
continua, sem nenhum problema, tudo na mesma, apenas a moral melhorada até tudo
voltar ao mesmo. E tudo sem derramamento de sangue, sem grande violência, sem o
país parar mais que uns dias.
Claro que há sempre meia dúzia de pessoas que exigem violência,
sangue e mortes, mas esses acabam por não ter coragem de a exercer por si, e ao
fim e ao cabo o que se quer é mudar alguma coisa, e isso foi feito, e no fundo
no fundo, nós sabemos que basta mudar quem está lá em cima. Porque quem está lá
em cima, nunca passam de meia dúzia de chulos, que aceitamos que o sejam, já
estamos habituados a isso, é assim que as coisas sempre foram, não podem é ser
sempre os mesmos.
Foi assim que sempre foi, é assim que sempre será. E pensando
bem no assunto, assim está perfeito. Portugal funciona. Quando as coisas correm
mal, basta meia dúzia de pessoas para mudarem o rumo da situação, sem grandes
dramas. Com festa, manifestações, gritos e bandeiras. E isto não é um sinal de
fraqueza, antes pelo contrário, se calhar é mesmo um sinal de força. Se calhar
é por todas as revoluções terem sido assim que nunca houve nenhum sobressalto,
e o país se mantém há quase um milénio unido e organizado na sua própria
desorganização. Não nos governamos nem nos deixamos governar, mas o poder é
sempre dado a quem o quer, desde que escolham um bom dia para ser feriado. Aceitam-se
apostas para quem fará a próxima revolução. Não é necessária a união de todo um
povo, basta chegarem-se à frente. O português agradece.
Cansaço
Os dias correm sempre iguais. O aborrecimento toma conta de
mim. Cansaço? Cansaço é estes dias cinzentos, sem réstia de sol, banhados pelo
frio constante, pelo vento que corta todos os sentidos da pele, pela água que
cai num sofrimento nebulado. Estou cansado… cansado destes dias de um Inverno
sofrido. Cansado de nada rasgar esta modorra infernal de roupas grossas e mente
ténue. Andar no fio da navalha, sempre um dia atrás do outro, na mesma luta de
tentar aguentar. É só mais um dia, sempre mais um dia, lá para a frente, umas
semanas, uns meses talvez, tudo muda. Acordarei, o sol ainda brilhará, abro a
janela e sinto o bafo quente da luz tórrida do sol, a rua estará inundada de
luz, cubro a pele com roupa leve, conseguirei respirar, a pele estará
embrenhada pelo ar quente, e sairei ao dia, calcorreando os passeios
esburacados, os trilhos de areia suja, o odor inebriante dos pinheiros, os
estalidos das pinhas a caírem através dos ramos no solo, o silêncio avassalador
do céu que tudo esmaga, numa sinfonia de azul e espaço. Sentir apenas os ecos
dos meus passos, respirar o Verão com todos os matizes da sua alegria, ali ao
lado o restolhar de um bicho a fugir, ao longe o horizonte escaldante.
Sentar-me numa mesa de piquenique, na berma do ribeiro lânguido,
talvez escrever, pensar numa ideia qualquer, talvez apenas saborear, mas algo
mais que não apenas estas nuvens sufocantes e constantes. Estou cansado… muito
cansado… sinto falta do cheiro do Verão. Ou talvez, apenas sinta falta de mim.
Uma página rasgada...
O dia chuvoso chegou sem aviso...
Onde Estás?
onde estás?
abandono ao som do meu silêncio,
olhar as estrelas chorosas,
moribundas na sua eternidade,
na síncope sonolenta da tua ausência.
tenho fome de mais.
tenho fome do olhar escaldante,
brilhante de negro luz,
incendiando o toque dos lençóis.
tenho fome do odor ácido da tua pele
conforto e divindade da minha religião.
tenho fome de mais.
fome dos passos percorridos em vão
em trilhos voluptuosos de oração.
fome das feridas deixadas na pele
na húmida revolução de almas perdidas.
tenho fome de mais.
fome de tempestades invernais
bátegas agrestes rasgando os corpos derrotados.
tenho fome de mais.
fome de mais...
tenho fome de mais...
abandono ao som do meu silêncio,
olhar as estrelas chorosas,
moribundas na sua eternidade,
na síncope sonolenta da tua ausência.
tenho fome de mais.
tenho fome do olhar escaldante,
brilhante de negro luz,
incendiando o toque dos lençóis.
tenho fome do odor ácido da tua pele
conforto e divindade da minha religião.
tenho fome de mais.
fome dos passos percorridos em vão
em trilhos voluptuosos de oração.
fome das feridas deixadas na pele
na húmida revolução de almas perdidas.
tenho fome de mais.
fome de tempestades invernais
bátegas agrestes rasgando os corpos derrotados.
tenho fome de mais.
fome de mais...
tenho fome de mais...
Além...
As ruas desertas,
banhadas de prata e humidade,
tragam nas pedras sujas,
memórias irreais
de vastas paisagens se sol.
Quando o calor bramia,
com o seu bafo tórrido,
punhais na pele nua
do cheiro húmido
de mulheres amadas,
num amor breve
feito de pele e carne,
e o céu imenso
esmagava a paisagem,
numa convulsão alquimica
que se diluía, confundia,
se tornava una,
eu era apenas um ponto,
um pequeno ponto de nada,
que me sentia parte
de todo aquele plano,
sem memória,
sem sonho,
sem pensamento,
fugaz e breve
alma de carbono.
Era,
por aqueles tempos,
personagem bíblica,
deus da minha religião,
acólito de fogo,
sorvedor da água da vida,
bêbado e actor.
Declamava odes ao vento,
ejaculava no fogo tépido,
embriagado de sangue, saliva e suor,
e repousava farto na lama partilhada.
(...)
banhadas de prata e humidade,
tragam nas pedras sujas,
memórias irreais
de vastas paisagens se sol.
Quando o calor bramia,
com o seu bafo tórrido,
punhais na pele nua
do cheiro húmido
de mulheres amadas,
num amor breve
feito de pele e carne,
e o céu imenso
esmagava a paisagem,
numa convulsão alquimica
que se diluía, confundia,
se tornava una,
eu era apenas um ponto,
um pequeno ponto de nada,
que me sentia parte
de todo aquele plano,
sem memória,
sem sonho,
sem pensamento,
fugaz e breve
alma de carbono.
Era,
por aqueles tempos,
personagem bíblica,
deus da minha religião,
acólito de fogo,
sorvedor da água da vida,
bêbado e actor.
Declamava odes ao vento,
ejaculava no fogo tépido,
embriagado de sangue, saliva e suor,
e repousava farto na lama partilhada.
(...)
...Eternal...
Fecho-me apenas em mim...
Perco-me em hipócritas divagações de Felicidade...
Vês-me sorrir?
São os ecos da minha caveira...
Apenas desejo o caos.
Sunset
Na noite que me cobre,
O sol é mais quente.
Memória de tempos idos,
Coberta pelo nevoeiro salgado,
Espuma irreal,
Que me cobre a face.
Olho o tempo que se desfaz,
Lentamente,
Com persistência pontual
Esvaindo-se no abismo,
Gritando o vazio impossível,
Do rasto da serpente
Que dançou ante meu olhar.
Ela abriu o vento,
Fez-se matéria palpável,
Rasgou-me os sentidos,
Mordeu-me a pele quente,
Fez-se humidade,
E lama!
E fogo!
Brandiu o meu desejo
Como faca aguçada,
E no fio da navalha fria,
Que me rasgava a pele,
Fez-me dela.
Derrotados,
As sombras deslizam nos lençóis,
E o sol morre rubro,
Banhado no odor da tua pele.
Vento e Silêncio
Risco um fósforo.
Abro os pulmões ao adormecimento.
A morte que me arrasta
Desenha uma nuvem azulada,
Que se enrola dolente
Na luz pálida do candeeiro solitário.
Pego num caderno,
Os cantos gastos,
Abandono nas noites frias,
Pego numa caneta,
E de impulso desesperado
Desenho palavras, na voracidade
Do tempo acabar depressa.
A minha voz grita,
No silêncio tempestuoso da noite.
Lá fora, o vento ruge indiferente.
Subscrever:
Comentários (Atom)

