Portugal e a Revolução



Certa vez, li algures uma curiosidade, que achei bastante interessante. Dizia que nos mais de oito séculos de História de Portugal, com todas as revoluções e mudanças de regime que já existiram, a revolução que tem o recorde de revoltosos foi o 25 Abril. Foram 120 revoltosos que fizeram a revolução. Como exemplo, a implantação da República movimentou 40 efectivos.
 Inicialmente achei o número bastante baixo. Como é possível que um Governo de uma Nação, independente e funcional, seja derrubado por pouco mais de meia dúzia de arruaceiros? E já existiram casos que foram mesmo meia dúzia de arruaceiros! Mas depois de pensar no assunto, compreendi. Afinal sou português, conheço outros portugueses, e sei muito bem como funciona a nossa pátria. A verdade é que o português sofre de um mal, só não sei se será positivo ou negativo. O português é incapaz de agir como uma nação, é incapaz de tomar para si a responsabilidade do seu próprio destino, é individualista e desorganizado, e a única forma que tem de agir enquanto multidão, é sempre de uma forma emocional, atabalhoada, confusa e ineficaz. Grita e barafusta quando está protegido pelo anonimato, e pela segurança das suas acções serem inúteis e passageiras. Qualquer coisa organizada, com um objectivo, pensada e ponderada, mete-lhe medo, não se envolve, desconfia e deixa para os outros tratarem. Como Pilatos, lava daí as suas mãos, e se ninguém fizer nada, a nossa cultura judaica dá-nos uma capacidade de sofrimento tal, que aguentamos, mesmo que passemos a vida a queixar-nos e a exigir que alguém faça alguma coisa.
Quando uma meia dúzia de arruaceiros resolve mesmo fazer alguma coisa, aí o português vai atrás, enche as ruas, tem uns dias de festa e barulho, apanha umas bebedeiras, fica feliz, pelo menos por uma ou duas semanas, e prossegue a sua vida, inocente e descansado por não ter nada a ver com o assunto, assim tem uma excelente desculpa para continuar a queixar-se. Ele não teve nada a ver com a revolução. E se foi para a rua festejar foi porque eles (são sempre eles) o enganaram, e afinal o que todos querem é tacho e viver á sua custa, pobre português.
Alguém tem dúvidas que vivemos novamente um período propício a uma revolução? E como sempre, não é preciso nada grandioso, nem nenhum derramamento de sangue. Basta meia dúzia de gajos entrarem na Assembleia, em Belém ou em São Bento aos gritos e sem serem convidados, darem e levarem meia dúzia de murros, tomarem conta de 3 microfones em frente a 3 câmaras de televisão e dizerem as palavras mágicas: “Hoje é um dia histórico para a nossa Nação. Viemos libertar o nosso grande país do jugo de ladrões e vigaristas que nos têm explorado, e a partir de agora iremos avançar para o progresso e desenvolvimento de Portugal. Viva Portugal!”
Ninguém se revolta, ninguém diz que não, as ruas enchem-se de festejos, toda a gente briga para gritar mais alto que os outros á frente das câmaras de televisão, agitam-se bandeiras, gritasse “Portugal! Portugal!”, ganha-se um novo feriado, meia-dúzia de políticos vão uns meses ou uns anos para o Brasil, gozar a fortuna ao sol, a moral nacional cresce, não há grande problema de sucessão porque no fundo nós somos um povo justo e pacífico, o que tem de se pagar pagasse, acabamos por perdoar a quem é deposto, e a vida continua, sem nenhum problema, tudo na mesma, apenas a moral melhorada até tudo voltar ao mesmo. E tudo sem derramamento de sangue, sem grande violência, sem o país parar mais que uns dias.
Claro que há sempre meia dúzia de pessoas que exigem violência, sangue e mortes, mas esses acabam por não ter coragem de a exercer por si, e ao fim e ao cabo o que se quer é mudar alguma coisa, e isso foi feito, e no fundo no fundo, nós sabemos que basta mudar quem está lá em cima. Porque quem está lá em cima, nunca passam de meia dúzia de chulos, que aceitamos que o sejam, já estamos habituados a isso, é assim que as coisas sempre foram, não podem é ser sempre os mesmos.
Foi assim que sempre foi, é assim que sempre será. E pensando bem no assunto, assim está perfeito. Portugal funciona. Quando as coisas correm mal, basta meia dúzia de pessoas para mudarem o rumo da situação, sem grandes dramas. Com festa, manifestações, gritos e bandeiras. E isto não é um sinal de fraqueza, antes pelo contrário, se calhar é mesmo um sinal de força. Se calhar é por todas as revoluções terem sido assim que nunca houve nenhum sobressalto, e o país se mantém há quase um milénio unido e organizado na sua própria desorganização. Não nos governamos nem nos deixamos governar, mas o poder é sempre dado a quem o quer, desde que escolham um bom dia para ser feriado. Aceitam-se apostas para quem fará a próxima revolução. Não é necessária a união de todo um povo, basta chegarem-se à frente. O português agradece.

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