Na calçada, os corpos amontoados largam um cheiro pútrido que se mistura com o ar abafado e estagnado. Provocam vómitos, tonturas e uma claustrofóbica sensação de desconforto em quem se aproxima. Tapar o nariz com a gola da camisola não resulta. O cheiro é tão intenso e agressivo que toma conta de tudo em redor. É impossível fugir dele, entranhasse na própria consciência. Mesmo depois de sair daquela rua abandonada e cheia de lixo e corpos a apodrecer, o cheiro contínua presente, como uma alucinação demasiado real e dolorosa. Um cheiro físico.

(excerto de Verbum Spiritus Homini)

...lixo humano...

somos o húmus do dia.
o vento que corre por entre as sombras
fantasmas de fogo espalhados no vento.
serpentes feitas de pedra,
selvagens perdidos na cidade.

somos o tormento dos gritos,
a solidão de betão,
os que se arrastam nas franjas,
olhando o céu poluído,
esperando...

esperamos o que não iremos encontrar,
promessas adiadas, esquecidas,
a sempre constante vertigem
o el-dorado irreal,
um sonho cravado a sangue,
imagens distorcidas
de uma felicidade ideal.

a felicidade é condicional,
as condições são impostas,
falhar em tudo,
húmus da sociedade,
lixo carnivoro.
gritar que se é feliz...

gritar!
sair do que nunca fomos,
essa a revolução.

Fechar os Olhos

(photo by Rodrigo Silva)
Fechar os olhos. Sentir o planar do universo, arrastando-se num silêncio ruidoso. O vento morto, queimando a pele nua; o sol indiferente, rasgando os sentidos; a terra compacta, ecoando no céu azul.

Fechar os olhos. Estender o corpo na lentidão tépida de não pensar. Esvaziar a mente. Ficar com o que sobra do dia: uma pegada perdida no meio do areal, o vento a cobrir lentamente o seu vestígio, um livro abandonado, coberto de grãos de areia, o silvo constante do vento, e a solidão que se fecha em murmúrios.

Fechar os olhos. Abandonar tudo. Toda a esperança, todas as memórias irreais que se repetem e repetem no turbilhão do silêncio do dia sufocante.

Fechar os olhos. Gritar. Gritar como se não existisse na margem do ser, uma voz arrastada na suplicante vertigem do calor. Gritar aos mil infernos o inferno único onde vivo.

Fechar os olhos. Esquecer... Esquecer...

Abro os olhos... O areal deserto inflamasse rubro, numa chama matizada de sonhos. Tenho em mim o cheiro do abandono que me veste...