Carícias

Sonho nas noites frias,
Com o sabor quente da tua humidade...
Suplício incandescente,
Feito de tormenta e sonho,
Na semente rasgada dos sentidos,
Vagas flamejantes que queimam.
Dilui-te na minha boca,
Com um grito de êxtase
Sufocado no violento despertar.
Feita nada,
Na voracidade
De fazeres-te minha,
Convulsão térrea
Derrotada...
O rosto extasiado,
Num leve sorriso,
Ruge
Na voracidade do tempo
Bêbado do teu odor quente.
Percorro delícias incandescentes,
Feitas de sonhos e solidão.
Na noite quente, a tua pele
É um grito que rasga-me os sentidos.

...derrota...

no traço do teu corpo
uma réstia de suor
esvoaça o tempo perdido
ansiando vestes matizadas
abandonadas
num chão pútrido
feito de memórias
irreais
sonhadas
na sordidez
do vasto murmúrio
silencioso

no ocaso
dos teus lábios
um grito
canta voraz
sedentos desejos

na convulsão
imaterial de mim
almas e dedos
unos no equilíbrio volátil
do teu corpo

"Love Hurts" Diálogos


Com os olhos no chão, a sua expressão tinha o peso da derrota que só uma mulher pode dar. Os seus olhos mortiços, os seus lábios hesitantes, aquele vagar nos gestos de quem já não se interessa, de quem não quer saber, de quem se quer entregar à dor e de lá nunca sair, todo ele era uma existência de quem não se sente.

Olhou o vazio, e com uma voz pesada e derrotada, desabafou a dor que tinha dentro de si, as mulheres não prestam, nenhuma mulher presta, são todas umas cabras, umas putas, só querem foder, gajos bonitos e ricos. Também ele tinha sido derrotado por uma mulher, também ele sofria por uma mulher, o ultimo passo do Amor, aquela Dor de se sentir traído, de se sentir iludido, de ter acreditado que havia uma pessoa, uma singela pessoa no Mundo inteiro, entre tantos biliões de pessoas no mundo inteiro, que ia tomar para si as suas dores, os seus sonhos, as suas angústias e as suas alegrias. Aquela dor de quem acorda e vê que afinal está só, como sempre esteve, como sempre soube que estaria. Aquela dor de quem repara que afinal… Não seria com Ela para o resto da Vida… Todas, murmurou ele ainda… Ela não era a excepção… Ela não ia ser Ele, com ele…

Ao vê-lo tão inocente, tão ingénuo, tão dorido, tão só, tão Dor, respirei fundo e fui honesto: Putas? Foder? Dinheiro? Gajos bonitos? Sim, é verdade. Todas as mulheres são assim. Isso pode ser verdade, que é. Mas acredita que isso é a maior mentira. As mulheres só querem uma coisa, uma única coisa, um gajo que as ouça, que fale com elas… E se um gajo as ouvir, falar com elas, não há dinheiro, beleza ou seja o que for que prefiram a isso.

Ele riu-se, sorriu, abanou a cabeça, concordou, e num silêncio quebrado murmurou. Puta. E foi Amor o murmúrio.

Caminhada

Não há na multidão parda,
um grito real.
Tudo são máscaras,
arrastadas,
no cinzento pálido do sol.

Ærumma

A meu lado um anjo, feito de sombras e solidão. Dentro de mim um demónio, rasgando-me em gritos. Fecho os olhos e acaricio o vazio de mim. Nas sombras de fumo e escuridão, vultos dançam, ébrios com a música silenciosa da noite. Olho o silêncio, dança inerte dos sentidos. Abro os olhos. Fico a olhar o tecto. Vazio.
Há de repente um ribombar. Dentro de mim algo explode. Algo tenebroso e assustador, uma erupção de negro que me engole. Nada faz sentido, tudo se torna irreal, sufocante. Um grito que me consome, no silêncio da noite fria. Um múrmurio ténue que cresce, se torna vagas monstruosas de terror. Consome-me um turbilhão tempestuoso. Um buraco negro que cresce, imenso, cada vez maior. Cresce com um silvo que se torna cada vez mais ensurdecedor. Cada vez mais avassalador. Multidão de demónios que se soltam no inferno de mim, em gritos desesperados, constantes, fétidos, avassaladores. Engolido pelo meu próprio medo, o meu corpo cai derrotado no vácuo de mim. Um grito solta-se, desesperado.
Nada sobra...