...uma chávena abandonada...

Há na forma delicada do teu gesto
uma tristeza que não se ouve.
O suave desenho de sombras
através de silêncios partilhados,
a multidão encerrada no teu olhar
que chora sob o dia cinzento,
a chávena de café abandonada.

Olhas com um olhar pequeno,
todo o medo é partilhado,
lá fora passa um grupo ruidoso,
olhas pela janela.
Nada interessa.
Acendes mais um cigarro,
não queres mais café,
a chávena continua abandonada,
o cinzeiro enche-se de beatas e cinza
lá fora a chuva continua a embater no vidro,
fixas o olhar no fim da rua,
passa um carro,
a noite cai...
O Tempo é cruel...

Falha


O meu mundo esvai-se.

Pensamentos que me afloram a mente, perdem-se depois no turbilhão de pensamentos que acabam por se confundir uns aos outros. Talvez agarrar um… É apenas isso que é necessário. Agarrar um pensamento, agarrá-lo com todas as forças, gritar ao vento e ao nada apenas esse pensamento, multiplicar, repetir, esvazia-lo ao seu máximo esplendor. É isso que é preciso… mas quando o começo a escrever… Fica apenas uma frase, e a impossibilidade de a sentir…

Respiro fundo, derrotado, acendo um cigarro e fico a olhar a chama do fósforo a dançar antes de morrer. Não saber o que escrever, ter a fome, a vontade, mas não ter nada que escrever… Como se o grito que me rasga a alma fosse tão violento que nem deve sair da sua gruta escura…

Porquê?

Na sua voz um murmúrio... No compasso incandescente da multidão dos mutilados, o ribombar de certezas perdidas no pó e no sangue. Quando ele se viu assim indefeso e só, a lágrima que floresceu afogou a sua Dor... Um grito que rasga, o murro no vento, o seu corpo prostrado no chão frio... na terra indiferente à sua solidão...





















Jean Jacques Henner "Solitude"

Chuva Miudinha

No dia enfurecido, sento-me na mesa abandonada do café vazio, bebo um café com a solenidade da chuva dançando na janela. Entra pela porta um frio que toma conta de tudo, gelando o ruído da televisão esquecida. Entra alguém. O seu corpo encolhido expande-se enquanto toma conta do ambiente com a sua voz familiar, e o riso da empregada deambula por palavras de simpatia antes de perguntar se é um café. Sim, é um café. E senta-se perto do balcão, enquanto fala em voz alta com a empregada, sobre quem acabou de ver na rua. A máquina chia, barafusta, preguiçosa, e o relato prossegue, sobre quem viu na rua.

Há nos pequenos momentos partilhados, uma forma de vazio que se dilui. O mundo persiste na sua imensidão, esmagando corpos derrotados em almas que gritam. A chuva persiste, o vazio persiste, mas a visão de alguém que se viu na rua, devolve por momentos alguma réstia de Humanidade. O paraíso que se perdeu, insiste em se manter escondido. Porquê esta ânsia de o reencontrar? Saio do café, a chuva molha-me a face, caminho sozinho sob a chuva miudinha, e desisto da Humanidade. O paraíso que se perdeu, nunca mais será descoberto. Abraço a derrota, e por momentos, sorrio, e acho o meu paraíso...


Nocturnus

Há nos dias que correm sempre iguais, um fascínio pelo Abismo. Cada passo que ecoa nas paredes sujas das ruas desertas, promete revolucionar todo o Universo. Até onde irá esta noite? Que delírios estarão prometidos para o silêncio sepulcral dos dias?
No chão que se desvenda no trajecto para o esquecimento, uma resposta é partilhada no céu branco da noite da cidade. Nenhuma estrela brilha, queimadas pelas luzes vazias e desertas. Nas janelas corridas, nas portas fechadas, nos prédios abandonados, nas ruas desertas, todas as respostas gritam estagnadas na minha consciência. O Vazio tomou conta de mim, e o frio que corta a minha face, liberta uma lágrima que gélida corre de encontro ao asfalto escuro.