Onde Estás?

onde estás?
abandono ao som do meu silêncio,
olhar as estrelas chorosas,
moribundas na sua eternidade,
na síncope sonolenta da tua ausência.
tenho fome de mais.
tenho fome do olhar escaldante,
brilhante de negro luz,
incendiando o toque dos lençóis.
tenho fome do odor ácido da tua pele
conforto e divindade da minha religião.
tenho fome de mais.
fome dos passos percorridos em vão
em trilhos voluptuosos de oração.
fome das feridas deixadas na pele
na húmida revolução de almas perdidas.
tenho fome de mais.
fome de tempestades invernais
bátegas agrestes rasgando os corpos derrotados.
tenho fome de mais.
fome de mais...
tenho fome de mais...

 hidden face by leadygrace
 hidden face by leadygrace

Além...

As ruas desertas,
banhadas de prata e humidade,
tragam nas pedras sujas,
memórias irreais
de vastas paisagens se sol.

Quando o calor bramia,
com o seu bafo tórrido,
punhais na pele nua
do cheiro húmido
de mulheres amadas,
num amor breve
feito de pele e carne,
e o céu imenso
esmagava a paisagem,
numa convulsão alquimica
que se diluía, confundia,
se tornava una,
eu era apenas um ponto,
um pequeno ponto de nada,
que me sentia parte
de todo aquele plano,
sem memória,
sem sonho,
sem pensamento,
fugaz e breve
alma de carbono.

Era,
por aqueles tempos,
personagem bíblica,
deus da minha religião,
acólito de fogo,
sorvedor da água da vida,
bêbado e actor.
Declamava odes ao vento,
ejaculava no fogo tépido,
embriagado de sangue, saliva e suor,
e repousava farto na lama partilhada.

                                   (...)

...Eternal...


 





Fecho-me apenas em mim...
Perco-me em hipócritas divagações de Felicidade...
Vês-me sorrir?
São os ecos da minha caveira...

Apenas desejo o caos.

Sunset



Na noite que me cobre,
O sol é mais quente.
Memória de tempos idos,
Coberta pelo nevoeiro salgado,
Espuma irreal,
Que me cobre a face.
Olho o tempo que se desfaz,
Lentamente,
Com persistência pontual
Esvaindo-se no abismo,
Gritando o vazio impossível,
Do rasto da serpente
Que dançou ante meu olhar.

Ela abriu o vento,
Fez-se matéria palpável,
Rasgou-me os sentidos,
Mordeu-me a pele quente,
Fez-se humidade,
E lama!
E fogo!
Brandiu o meu desejo
Como faca aguçada,
E no fio da navalha fria,
Que me rasgava a pele,
Fez-me dela.

Derrotados,
As sombras deslizam nos lençóis,
E o sol morre rubro,
Banhado no odor da tua pele.


Vento e Silêncio



Risco um fósforo.
Abro os pulmões ao adormecimento.
A morte que me arrasta
Desenha uma nuvem azulada,
Que se enrola dolente
Na luz pálida do candeeiro solitário.

Pego num caderno,
Os cantos gastos,
Abandono nas noites frias,
Pego numa caneta,
E de impulso desesperado
Desenho palavras, na voracidade
Do tempo acabar depressa.

A minha voz grita,
No silêncio tempestuoso da noite.
Lá fora, o vento ruge indiferente.