Na noite fria, o nevoeiro toma conta de tudo, arrasta desejos esquecidos nas sombras. Os meus pés ecoam solitários nas paredes sujas, e a febre que toma conta de mim faz-me tremer em silêncio. A noite faz-se silêncio e nada.
No fim da rua, um vulto encolhido. Caminha em silêncio na minha direcção. Arrasta os pés devagar, invisível na roupa grossa. Quando se cruza comigo, os seus olhos encontram os meus, murmura "boa noite" num fio de voz sumida, e tosse com o ar frio que lhe entra na garganta. Respondo, passo por ele. Depois de três passo ouço-o, "desculpa...". Viro-me. "Não tens um cigarro?". Dou-lhe um cigarro, e toma-o com as mãos nuas. Agradece, desculpa-se, não tem dinheiro, está desempregado, não encontra trabalho, está doente, um jeito num ombro, já foi à Segurança Social... Interrompo-o, não há problema, ele agradece, diz boa noite.
Talvez num outro tempo o ouvisse. Talvez num outro tempo lhe desse outro cigarro. Talvez num outro tempo, deixasse o homem desabafar, antes de o ver partir, com um sorriso nos lábios e um brilho no olhar. Não há mal que sobreviva ao momento de o desabafar. Todos nós sabemos isso. A tristeza, a vergonha, o medo, são palavras que nos sufocam na mente, com o peso imenso de nos esmagar, mas basta dar um pouco de ar nas palavras que nos rasgam, que por momentos elas fazem-se leves, e fluem para o vazio antes de se fazerem silêncio. Esvaziam-se. E naquele breve instante, fazem-se nada, e tudo parece mais suportável.
Mas agora não. Agora não quero ouvir ninguém. Não quero falar com ninguém. Não me interessa nada de nada. Quero-me com o peso insuportável do meu silêncio, e por mim, todo o mundo pode desabar em silêncio, num grande êxtase de gritos mudos que hão-de rasgar a humanidade toda, até a última vítima sucumbir sob o peso do silêncio atroz. Talvez esse seja o último estado da loucura, antes da grande noite silenciosa tomar conta de todos os eléctrodos do nosso corpo. Talvez... Mas se isto for a derradeira convulsão, hei-de abraçá-la com a voracidade nula de a desejar. E antes do último grito, aquele grito que rasga toda a sanidade, me escapar violentamente da garganta, levanto as mãos ao céu, e gritarei que não me interessa, nada me interessa, declino toda a humanidade, toda a condição humana que me veste, e serei livre, na gargalhada histérica da minha própria derrota.
A noite está fria... sinto o ar frio na pele e na cara, e a realidade toma por momentos conta de mim. O silêncio torna-se ténue. Hei-de aguentar mais um dia...
Talvez num outro tempo o ouvisse. Talvez num outro tempo lhe desse outro cigarro. Talvez num outro tempo, deixasse o homem desabafar, antes de o ver partir, com um sorriso nos lábios e um brilho no olhar. Não há mal que sobreviva ao momento de o desabafar. Todos nós sabemos isso. A tristeza, a vergonha, o medo, são palavras que nos sufocam na mente, com o peso imenso de nos esmagar, mas basta dar um pouco de ar nas palavras que nos rasgam, que por momentos elas fazem-se leves, e fluem para o vazio antes de se fazerem silêncio. Esvaziam-se. E naquele breve instante, fazem-se nada, e tudo parece mais suportável.
Mas agora não. Agora não quero ouvir ninguém. Não quero falar com ninguém. Não me interessa nada de nada. Quero-me com o peso insuportável do meu silêncio, e por mim, todo o mundo pode desabar em silêncio, num grande êxtase de gritos mudos que hão-de rasgar a humanidade toda, até a última vítima sucumbir sob o peso do silêncio atroz. Talvez esse seja o último estado da loucura, antes da grande noite silenciosa tomar conta de todos os eléctrodos do nosso corpo. Talvez... Mas se isto for a derradeira convulsão, hei-de abraçá-la com a voracidade nula de a desejar. E antes do último grito, aquele grito que rasga toda a sanidade, me escapar violentamente da garganta, levanto as mãos ao céu, e gritarei que não me interessa, nada me interessa, declino toda a humanidade, toda a condição humana que me veste, e serei livre, na gargalhada histérica da minha própria derrota.
A noite está fria... sinto o ar frio na pele e na cara, e a realidade toma por momentos conta de mim. O silêncio torna-se ténue. Hei-de aguentar mais um dia...