...horas...

Ocaso
O dia sabe a nada. São horas que passam, e se arrastam, em minutos que persistem na sua precisão.
Acendo um cigarro, mais um, e olho o fumo azulado elevar-se rumo ao Esquecimento.

Crepúsculo

Consegues ouvir o silêncio da minha morte? Vagas inertes que se confundem nas cortinas do dia que jaz. Uma fome que me consome, sem destino que se veja, sem fogo que se faça cinza. Uma inútil sucessão de horas negras, ouvindo o troar da morte que se aproxima...

Madrugada

Apago a luz e as sombras mutilam-se. Na rua, passam carros que incendeiam por momentos a estrada vestida de nada. A noite passa, o sono não vem, a noite sabe a nada.

Grito(s)

Nas sombras incertas um grito ecoou, real e súbito, como uma multidão em alvoroço... Olhei assustado. Era o meu silêncio...

Acendi um cigarro e voei em mim mesmo. Matei-me, ressuscitei, no tempo impreciso dum suspiro.

Sentei-me na cadeira mais afastada da mesa mais vazia, olhei o espaço invisível até ao infinito desfocado. Na minha frente, um copo vazio, uma chávena suja, um cinzeiro abandonado. Cinzas de um momento perdido. Atrás de mim um vazio feito de nada. A brisa passa, queima-me os braços de um sopro, o toque quente, o tempo desfaz-se.

Arabráb

Sim,
Ouvi a tua frase,
Cortada através do silêncio,
Dizer-me algo na alma.
A música sibilante,
Lenta e sensual,
O ar quente da tua garganta,
No ouvido deleitado do meu ser.

Sim,
Ouvi todas as tuas palavras,
Tenho-as ainda dentro de mim,
Canto-as nas noites solitárias,
E vogo em nuvens imaginárias,
Ao som da tua voz.

Ouvi
Como elas te rasgaram o peito,
Enquanto a tua respiração hesitava,
Um segundo,
Talvez nem isso,
E aquele silêncio nosso,
Foi todo o Universo.