Cansaço

Os dias correm sempre iguais. O aborrecimento toma conta de mim. Cansaço? Cansaço é estes dias cinzentos, sem réstia de sol, banhados pelo frio constante, pelo vento que corta todos os sentidos da pele, pela água que cai num sofrimento nebulado. Estou cansado… cansado destes dias de um Inverno sofrido. Cansado de nada rasgar esta modorra infernal de roupas grossas e mente ténue. Andar no fio da navalha, sempre um dia atrás do outro, na mesma luta de tentar aguentar. É só mais um dia, sempre mais um dia, lá para a frente, umas semanas, uns meses talvez, tudo muda. Acordarei, o sol ainda brilhará, abro a janela e sinto o bafo quente da luz tórrida do sol, a rua estará inundada de luz, cubro a pele com roupa leve, conseguirei respirar, a pele estará embrenhada pelo ar quente, e sairei ao dia, calcorreando os passeios esburacados, os trilhos de areia suja, o odor inebriante dos pinheiros, os estalidos das pinhas a caírem através dos ramos no solo, o silêncio avassalador do céu que tudo esmaga, numa sinfonia de azul e espaço. Sentir apenas os ecos dos meus passos, respirar o Verão com todos os matizes da sua alegria, ali ao lado o restolhar de um bicho a fugir, ao longe o horizonte escaldante.
Sentar-me numa mesa de piquenique, na berma do ribeiro lânguido, talvez escrever, pensar numa ideia qualquer, talvez apenas saborear, mas algo mais que não apenas estas nuvens sufocantes e constantes. Estou cansado… muito cansado… sinto falta do cheiro do Verão. Ou talvez, apenas sinta falta de mim.

Sem comentários:

Enviar um comentário