Espelho Negro


Dentro de mim existe um ruído mudo que se propaga pelo silêncio da minha própria derrota. Olho os dedos que se fecham sob um vazio que me esmaga, na triste e confusa persistência de uma multidão que dentro de mim grita, num desespero que me corrói os ossos, a alma, o tempo…
Olho os dias sempre iguais, os minutos que passam lentos numa convulsão de imensidão. Olho sem ver, olho…

Quem és tu? Porque persistes em me atormentar? Num grito que trespassa todas as derrotas, numa fúria que hesita em gritar do mais fundo de mim, na solidão de todos os tempos encerrados no túmulo vazio da minha memória. Olho para o espelho, glórias passadas cravadas na minha pele, em beijos secos que jazem no fundo de meus olhos vazios. Existe alguém atrás desse véu? Um grito de êxtase preso no fundo de uma garganta ferida? A voz rouca do tempo que se apaga? O tímido vislumbre de um toque que se anseia? A saudade difusa de possuir o que nunca se teve? O sonho é a persistência de um vazio que se quer gritar. E acordo com a certeza de nada mais ter dentro de mim. Olho o espelho… nada vejo.

10 comentários:

  1. hummm...lamento tanto, desculpa..não devia, não podia.
    queria poder dizer já lá estive, sei o que é, ter uma solução, uma poção...mas não, é, julgo eu, impossível, eu não tenho forma de saber, e no entanto eu entendo...um pouco, tento muito entender..passo muito do meu tempo a tentar...
    como é que se consegue desembacear um espelho...dar-lhe nitidez, brilhos, reflexos, profundidade...
    heaven please...
    um abraço...julgo que um abraço seria bom...

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  2. A dizer verdade, eu nem gosto de espelhos... Não é fobia, mas não olho mesmo espelhos.

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  3. O abraço mantém-se...

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  4. e já que lamentavelmente nada vês...eu ajudo-te...,és uma pessoa muito bonita, daquelas de quem vale a pena gostar e por quem vale a pena olhar(de dentro)e procurar(por dentro).

    valeu uma hora de almoço esquecida para uma segunda ou terceira releitura de todos estes anos que aqui verteste.

    Mesmo eu, o que sonha tanto, tenho intervalos em que o sonho me foge. Então as coisas aparecem-me nítidas. Esvai-se a névoa de que me cerco. E todas as arestas visíveis ferem a carne da minha alma. Todas as durezas olhadas me magoam o conhecê-las durezas. Todos os pesos visíveis de objectos me pesam por a alma dentro.
    Fernando Pessoa

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  5. O grande Pessoa :)

    Sabes? Eu gosto de escrever e sempre escrevi, desde que me lembro de mim, mas muitas vezes algumas pessoas lêem o que escrevo e eu sei que acabam por ler mais do que escrevo. Muitas das vezes o que escrevo ou não significa nada, ou é apenas algo extrapolado de coisas muito insignificantes. Ou é simplesmente mal entendido lol Mas eu gosto disso, as vezes tento explicar o que escrevi e realmente não tem piada nenhuma, nem nenhum interesse. lembro-me que já tiveram ideias mirabolantes de coisas que escrevi, quando o texto nasce de um facto tão insignificante como uma conversa de café, um olhar trocado com um desconhecido, ou até um texto que leio algures.

    Uma frase que me vem á cabeça, ou uma frase que leio algures... E como o Pessoa diz, todos os versos são escritos no dia seguinte

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  6. O que nasce com naturalidade, mesmo que de uma insignificância, é sempre o mais verdadeiro. E sim, é uma forma de escape o que torna ao mesmo-a necessidade do escape ou então entope.

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    1. e o ser escrito no dia seguinte, não só não retira genuinidade de sentires, como ainda acrescenta o sabor de uma coisa que foi pensada, sentida, vivida e a partir daí descrita em palavras mais ou menos reveladoras ou elaboradas, desse sentir que se sentiu, com um principio, meio e fim. um qualquer fim.

      o poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente.
      fp, o grande

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  7. E por aqui, neste sítio, parece que não anda muita gente...gente que opine pelo menos. Cidade em chamas é espectacular, o meu preferido de todos. Amei.

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  8. O cidades em chamas foi escrito há bastante tempo, e sinceramente tenho muito orgulho nele. E sem a minima ponta de humildade digo, foi mesmo algo maior que eu mesmo. Porque o poema é sobre algo que na altura não estava à superfície, e foi escrito quase como uma revelação, porque de lá para cá o descalabro tem sido cada vez mais evidente. Em 2005 (quando o escrevi) a crise ainda não era palpavel, nem visivel. Mas a raiva, o prenuncio já lá estava, e todo o poema é sobre isso, a raiva, o desespero, o medo. Uma sociedade em descalabro, uma promessa de fogo e chamas e explosão à espera de acontecer. 7 anos depois, isto tudo já é visivel, infelizmente, acredito piamente que ainda não chegamos à visão do poema. As coisas ainda irão piorar mais, explodir mais. profético? Não. Mas apenas era-me bastante claro na altura o que o futuro reservava, e mesmo que o futuro seja agora, temo que ainda irá descambar mais. Nunca pensei é que passados 7 anos a queda ainda vá em crescendo. na altura pensava que em 2012 o pior já teria passado e já estariamos a reconstruir as cidades em cinza.

    E sim, ninguem escreve, mas o blog é visitado lol já não como o meu antigo em que chegava a ter milhares de visitas por dia, mas é seguido, e nem só por acaso. Não faço a minima ideia de quem o segue, não se acusam, mas sei que é seguido, e segundo o google, existe até um grupo ainda considerável de pessoas que leem o blog bastante, mesmo mesmo bastante. centenas de visualizações por mes. Já agora, se lerem o comentário, peço desculpa por na esmagadora maioria das vezes apenas encontrarem o mesmo de sempre... Mas eu prometo que um dia, poderão começar a encontrar mais entradas. nem que comece a colocar aqui textos antigos, inéditos ou não.

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  9. Sim, julgo que ainda vamos chafurdar na lama por uns largos tempos. Que aquilo que renasça de tudo isto, nos ensine de vez que este não é o caminho

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