Abandono

Na ferida ténue e profunda das trovas rasgadas, o suplício dos dias inertes roubam memórias difusas do passado. Gritos concretos, feridos de sonhos, ansiando a liberdade perdida no semblante esquecido. Lá onde as cadeiras abandonadas ao pó do sol envelhecem, líquidos químicos florescem em semblantes vazios,  pele macienta de fome e sonho. No chão rugoso de alcatrão, cimento em pó amontoa-se entre o lixo furioso do abandono, e a partilha furiosa rasga veias, lançando sangue apodrecido na turba ruidosa, largada aos dias tempestuosos. No último dia do último pesadelo, o seu grito foi engolido com a violência estática da brisa gelada, e a sua garganta engoliu a última lágrima derrotada que ainda tinha dentro de si. De ora em diante, o oxigénio alimentará apenas um corpo morto, na constante forma deteriorada da solidão da alma derrotada. Serás um verme, rastejando para o fim do tempo, com passo decidido e derrotado de quem ficou no portão da eternidade, no silêncio atroz de quem não soube gritar ao murmúrio etéreo cravejado de diamantes sujos. Abandono carbonado ao frio indiferente e sujo!

Sem comentários:

Enviar um comentário