Clemência do Destino,
Um último desejo...
Derrotado em vis batalhas,
Abandonado num chão frio e ignóbil,
Fraco...
Espero um fugaz murmúrio,
Um derradeiro sinal,
Esperança...
Inútil palavra,
Dita e inaudita,
Ténue,
Talvez...
AAAAAh! Grito desalmado,
Daquele que já não tem Alma,
Daquele que se abandona,
Daquele que desistiu sem ter tentado,
O pobre trovador sem guitarra
Perdido no metro,
Cantando ao vazio,
Trovas que ninguém ouve.
Sim...
Eu estou ali,
No meio da multidão indiferente,
Cantando melodias desafinadas,
Procurando a moeda parca,
Recompensa reflectida nos azulejos sujos,
O tilintar das moedas largadas no saco,
Ecoando e morrendo nos passos apressados,
O olhar de esguelha que se cruza comigo,
Que se perde, enfim,
Nas escadas de um altar sujo,
No submundo, nas entranhas,
Nas veias eléctricas da cidade...
Eu estou lá.
Sou o guardião da Humanidade,
A última réstia de Poesia,
O xamã, o comediante...
O sedutor das donzelas,
Que passam, olham, sorriem, partem, morrem...
Eu estou lá...
Na passagem do portal,
Gritando "Sofram! Sintam! Vivam!"
Gritando no eco das paredes sujas,
Nos grafittis que não são lidos,
Na tinta ainda fresca que se diluiu em rios de cor na sujidade,
Sou a cor das paredes sujas,
Sou o Grito,
A voz da cidade...
Sou o Desespero nos olhos vazios,
O veneno no copo pousado na mesa vazia...
Sou o que sobrou e o que faltou.
Sou a marca da bota cardada na face do delinquente,
Sou o sangue que jorra nos bastões dos polícias,
Sou o vergão nas costas nuas do protestante,
(Um miúdo apenas, que encontrou o Dogma),
Seguidores cegos de políticos sinceros,
Momentos antes da mentira final.
Sou eu...
Sou o que canta, o que grita, o que chora...
Sou Eu!
O que se arrasta nos metros, nas ruas, nos passeios,
Sou o que se senta em bancos de jardim destruídos no grande sopro de fogo,
Sou o que foi e tornará a ser,
Sou as entranhas,
Sou o Grito mudo e calado,
Sou a Humanidade,
Percorrendo veias pútridas e poluídas,
Esmagado pelo silêncio do ruído,
Esmagado por uma promessa que se destrói,
Que se desvanece lentamente na persistência do Tempo.
Sou a poça de sangue no asfalto do dia seguinte...
Sou eu...
O último dos resistentes,
Sou o marchar de exércitos antes da queda do último Império.
O ritmo compassado,
A promessa da podridão
Alastrando-se pelos campos cheios de ervas esquecidas,
O som do vento,
Dançando através do silêncio,
O último grito de desespero
Da ultima criança abandonada,
O sangue que escoa quente para a terra faminta...
Fome de guerra...
Fome de sangue...
Fome de verdade...
Fome de justiça...
Fome de felicidade...
Fome de amor...
Fome de sorrisos,,,
Fome de infância...
Aquele que não encontrou a tenda,
Que recorda a infância perdida,
Num lugar quente da memória,
A pele fria recortada em lágrimas salgadas...
A pulsão dentro de mim,
Destruindo toda a verdade
Sentindo toda a dor,
Roendo entranhas pútridas,
Agarrando armas sem balas,
Gritando para a dor final,
Desesperos inertes
Perdidos num salão magico de sonhos esquecidos
Fechados a chaves de ouro,
Perdidas talvez,
Talvez num tempo que não encontrei dentro de mim,
Num rasgo de sangue que não sarou,
Duma ferida que rasguei na pele para sentir,
Cruel adolescência que sinto em mim,
Na velhice que lentamente toma conta de mim,
Matando-me dia a dia,
Hora a hora,
Duma hora que já passou...
Sou aquele que não foi,
Que grita enfim na dor final,
A Morte que sinto à minha volta...
Os corpos prostrados em cerimónias surdas,
Os casacos que se enchem de gotas,
Que caem vazias na calçada,
Resvalando nos impermeáveis.
A dança das gotas na poça,
Que todos pisam sem ninguém a ver,
Mortalha de pó,
Sujidade invisível,
Na lenta persistência dos dias.
Acendo um cigarro,
Coloco a mão a proteger do vento,
E a chama civilizada dança ante meu olhar inerte.
Enquanto fumo,
A mão no bolso,
Inerte,
Olhando tudo,
Tudo entra numa espiral de Apatia,
Nada faz sentido,
E pergunto-me o que fazemos aqui
À chuva e ao vento,
Talvez todos perdidos,
Talvez todos desistentes.
A meu lado dois conhecidos dizem bom dia,
A esperança existe...
Partem enfim...
Promessas de um bom dia,
Que tudo corra bem,
Não importa.
Isto tudo vai arder,
E sinto que as rochas continuaram a deitar-se no mar
Enquanto todo eu irei morrer na esperança de ressuscitar.
Talvez seja o tempo a tomar conta de mim...
E enquanto tudo se esvai,
Enquanto os gritos mudos se confundem,
Se perdem na imensidão do silêncio sincopado,
Lá ao longe,
Tão longe da nossa realidade inerte,
Eu fico aqui,
Nos extremos que se arrastam,
Nos gritos que se soltam antes do silêncio final,
E ouço o crepitar de chamas invisíveis,
Inauditas,
Inexistentes ao olhar formatado.
Mas sinto seu calor,
Lá onde o frio tomou conta da noite,
Lá onde os charros se fumam às escondidas,
Cantando as boas-vindas ao Novo Mundo,
Lá onde ninguém acredita que o Velho Mundo morreu,
Quando a última vaga destruiu os castelos na areia.
Acendam isqueiros,
Acendam as vossas bombas,
Ensaiem a vossa morte...
Vamos acender fogos nos gritos das lágrimas das crianças,
A Morte chegou.
in "A Fenda do Abismo"
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